terça-feira, 26 de janeiro de 2010

O problema de Tempos Modernos é o Público


Uma crítica muito interessante que achei no site Portal da TV

Para começar este artigo é preciso deixar claro uma coisa: eu sou um dos grandes defensores da telenovela como obra de arte, assim como cinema, teatro e literatura. Não a considero melhor ou pior que as outras citadas, mas entendo que ela tenha uma linguagem própria para um público próprio. Posto isso, vamos falar de Tempos Modernos.

Com duas semanas de exibição, a trama de Bosco Brasil ainda não emplacou no Ibope como queriam os executivos da Rede Globo que esperavam muito da obra, muitas críticas estão surgido em vários sites e jornais fazendo referência a linguagem e ao ritmo de Tempos Modernos, além claro que falar da audiência bem abaixo do satisfatório. Mas é preciso fazer uma análise mais complexa destes números em comparação ao que foi apresentado nestes primeiros 12 capítulos.

O folhetim é muito mais do que uma trama simples, com humor raso e diálogos quase infantis como suas antecessoras e, principalmente, Caras e Bocas que foi um sucesso retumbante, mas que nunca teve um texto que primava pela qualidade intelectual. Tempos Modernos apresenta ao público algo muito diferente do que se vê tradicionalmente nas novelas, seja qual for o horário. Em qualquer análise que se faça, optando por quaisquer das muitas características de uma trama, há de se perceber que a novela das 7 é muito diferente.

O ritmo ilustra muito bem esta afirmação. Tradicionalmente as primeiras semanas de uma novela é mais calma, com alguns acontecimentos rápidos para prender a atenção do público, mas apresentando os personagens de forma tranqüila e profunda, para que o público conheça melhor cada característica dos personagens e possa se identificar com alguns. Tempos Modernos modificou isso ao criar um ritmo alucinante desde o princípio. O autor não parece interessado em fazer apresentações, em mostrar as facetas de seus personagens. Para ele, ao que tudo indica, o importante é que o público conheça-os através de suas atitudes – que são muitas. Tudo é muito exagerado no ritmo da trama, isso mostra a intenção clara de colocar os personagens dentro de situações improváveis, mas teoricamente interessantes. Neste sentido, o folhetim lembra muito pouco o formato de telenovela e se aproxima muito mais das séries, pois os capítulos são quase independentes um do outro, sem grandes ligações, o que é uma inovação e tanto. Isso não quer dizer que a história não faça sentido, ela faz, mas a história maior – a que vai amarrar toda a obra – é cercada por pequenas histórias contadas a cada capítulo, como em séries.

Ao se olhar para as histórias em si é possível fazer observações interessantes. A grande crítica é que Tempos Modernos não apresenta uma história importante, centrada e que chame a atenção do público. Para os críticos, ali, tudo é muito forçado. Discordo. Primeiro é preciso lembrar que estamos diante de uma novela, de uma obra de ficção que desde as chamadas nunca teve a intenção de mostrar sentimentos, situações e pessoas reais. Bosco Brasil vem fazendo isso com maestria, fugindo da identificação, ou seja, ali, ninguém se parece com uma pessoa de verdade. E é nisto que os críticos erram ao não compreender que o Edifício Titã – local em que se passa boa parte da trama – não existe, é obra de ficção, está na imaginação. Se olharmos isso tudo sob este prisma, a história deTempos Modernos se torna divertida, de bom gosto, com verossimilhança, leve e muito bem colocada.

As referências a obras clássicas também podem atrapalhar a compreensão do público. Alusões a grandes obras do cinema e da literatura, além de frases típicas de contos de fadas, dão ao folhetim uma cor completamente diferente a que nos acostumamos para o horário – e para as telenovelas de modo geral. Esta mudança não deve ser vista como uma ruptura negativa, mas como uma experiência em se criar novos caminhos para a sobrevivência do segmento.

Muitos estão criticando também o elenco e cometem erros e injustiças. Antônio Fagundes nem de longe lembra seu último personagem, Juvenal Antena em Duas Caras, apesar de ambos os personagens terem histórias de vida semelhantes, Leal é muito mais bem humorado, e Fagundes criou trejeitos muito interessantes para o personagem. A dupla romântica da trama também começa a chamar a atenção. De fato, Nelinha e Zeca são extremamente melosos, românticos e suas falas são cheias de metáforas e as vezes parecem não se interagir uma a outra. Mas isso é literatura, é licença poética, e Bosco Brasil faz isso com maestria. É o típico amor de cinema. Tiago Rodrigues soube dar nuances interessantes a seu personagem e Fernanda Vasconcelos vem melhorando. Viviane Pasmanter e Regiane Alves mostram que sabem fazer humor, no papel de Regeane e Goretti, respectivamente, a dupla tem dado a chance de muitas risadas ao público e creio que suas personagens vão crescer muito ainda.

São muitos os destaques do elenco. Guilherme Weber segue muito bem como o vilão Albano. Ele é o personagem mais difícil de fazer, por ser um vilã atípico. As maldades não são escondidas, ao contrário, são claras e até divertidas e, isso o torna muito mais interessante. Grazzi Massafera vem dando conta do recado com sua primeira vilã Deodora, ela não é o destaque desses capítulos, mas não compromete. E não podemos esquecer de Eliane Giardine que, madura, experiente, vem dando um banho de interpretação como Hélia.

E tem o núcleo mais complicado e criticado. A galeria do rock. Comandada pelo personagem de Leonardo Vieira (que só pra variar vem dando um show), os roqueiros de Tempos Modernos vêm sofrendo uma enxurrada de críticas, muitos considerando-os exagerados. Bobagem. Quem já visitou a galeria do Rock em São Paulo sabe que funciona daquele jeito. Quem tem amigos que consideram o rock uma religião, sabe que eles são desta forma. Eu estou gostando muito do núcleo. E ainda é preciso lembrar novamente que ali é uma obra de ficção, é preciso mostrar as principais características da tribo justamente para chamar a atenção.

A idéia do computador inteligente, o Frank, foi muito bem bolada. Ainda acho que o “personagem” vem sendo muito pouco aproveitado. Creio eu que a voz vai aparecer muito mais no decorrer da trama. Por ora, tem aparecido pouco, mas a todo momento, o texto do Frank é um dos melhores de cada capítulo. Com um bom humor impressionante o computador já conquistou o público.

Ao ver as críticas a novela e pessoas dizendo estarem com saudades de Caras e Bocas nota-se que há um problema no público brasileiro. A falta de paciência para se pensar, para degustar uma obra com calma, sem precisar rir mecanicamente com frases repetidas todo capítulo – em Caras e Bocas metade dos personagens tinham seus bordões que se tornaram previsíveis nas cenas. O diferencial deTempos Modernos está justamente nisso. Não há bordões. Não há situações bizarras para se criar humor pastelão e que são repetidas a exaustão. Há texto, há profundidade das situações e das falas e há humor, muito humor, mas humor com conteúdo.

O que se percebe com tudo isso? Que não há mais espaço para novelas que apostam num humor diferente, um humor crítico, ácido, com contextualização, com referências. Não o rir pelo rir, mas o motivo, o fundamento do humor. Eu quero muito estar enganado, mas a impressão que se dá é que novelas como Guerra dos Sexos e, principalmente, Que Rei sou Eu, sucessos da década de 80 e com humor de qualidade, seriam fiascos nos dias de hoje. Por isso, está claro que o problema de Tempos Modernos é um só: o público.


Fonte: Portal da TV

Um comentário:

Isabel Cristina disse...

Bom eu crei que começo de novela é sempre assim, não tem muita audiência, principalmente pelo horário e ter começado na época de férias, mas acho que logo ela emplaca e a audiência vai ficar boa, apesar de eu não assistir, mas vendo as chamadas creio que ela tem tudo para dar certo é só questão de tempo.
Sem contar que o elenco é ótimo.
Beijos.