segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Se você morrer eu me suicido.

Lembra-se do tempo em que escrever bobagens românticas (como essa) faziam nossa cabeça? Sempre atrás de uma bobagem maior para definir não um amor carnal, mas um amor quase fraternal. Um amor de dois amigos que viam um em outro um tipo de espelho onde se mirar. Essa (e tantas outras bobagens) fazia parte do nosso extenso repertório de clichês de uma amizade eterna que, por um simples baile, foi por água abaixo. Você e sua falta de percepção, eu e meu ciúme incontrolável. Essa mistura nunca foi promissora e, por mais que tentássemos, sabíamos disso. Você tão extrovertida, eu tão introvertido. Você tão falante, eu tão calado. Você sempre consoladora, eu sempre tão consolado (vice e versa periodicamente). Tínhamos tudo para sermos aqueles amigos de mais de 50 anos. Seu sorriso, meu humor, suas broncas, minhas broncas, nossas faltas de assunto. Tudo isso era química pura. Mas nem toda química dá certo. Nem todo composto é sólido, ás vezes ele é solúvel e se dissolve para nunca mais se ouvir falar. E foi assim com nós dois.

Eles se encontraram por acaso há anos atrás nos bastidores de uma peça, ele esbarrou nela. “Desculpe”. Ela abriu um sorriso doce. “Tudo bem”. Os dois seguiram, cada um para um lado, seus caminhos. “Você sabe onde fica o banheiro?”. “Virando o próximo corredor à esquerda”. “Obrigada”. “Disponha”. “Eu acho que te conheço de algum lugar”. “Mesmo? De onde?”. “Não sei, mas seu rosto não me é estranho. Você não fez inglês na Universidade de Jacareí?”. “Não, nem conheço Jacareí”. “Então não é você. Me desculpe e obrigada mais uma vez”. “Disponha mais uma vez”.

Ela foi rumo ao banheiro e ele continuou perdido ali nos bastidores à procura de um camarim onde se instalar. Quando encontrou seu camarim e finalmente se instalou deu de cara com a moça do corredor. “Você aqui?”. “Pelo visto vamos dividir camarim”. “Meu nome é Ricardo.” “Eu sou Alessandra”. Depois daquele primeiro aperto de mãos sabiam que nunca mais iriam se separar.


Sei que é difícil de dizer, por isso mesmo estou escrevendo esta carta. Não acho que você vá lê-la, até porque há muito tempo você não lê nada que eu escrevo. Desde que você não me chamou para ser um dos seus representantes você não se importa mais pelo o que eu digo ou deixo de dizer. Fiquei lá, sentado de canto esperando um simples olá e nada seu. Fiquei ali com toda a minha consideração engasgada na garganta enquanto você se esbaldava com gente de mais chão e menor consideração. Impressionante como essas coisas acontecem na vida não é? A dedicação e a consideração deixaram de valer alguma coisa se você tem menos de 28 anos. Antes dos 28 é tudo fugaz, tudo passageiro. Pessoas são descartáveis. Sempre que surgir alguém mais legal e com mais bobagens a oferecer, essa pessoa será o centro de sua atenção. Isso até que você chegue aos 28 anos e perceba que é tarde demais – porque será tarde demais – para voltar atrás.


“Ela vai dizer que você é uma menina doce e que sabe do seu potencial, mas a porta do colégio não é para que você faça esse tipo de coisa e blá blá blá, confie em mim, conheço a Veridiana”. “Será mesmo? Estou com medo”. “Não precisa. Depois de uma conversa com ela, você já conhece o repertório inteiro”. Ela estava desesperada. Tinha aprontado todas beijando um rapaz na frente do portão de seu colégio, causando a maior arruaça, uma arruaça tão grande que a diretora foi obrigada a chamá-la para conversar. Ele não estudava no mesmo colégio, mas conhecia a diretora, conhecia também o repertório de broncas e sermões, tanto que os disse de cor para que ela se acalmasse. No dia seguinte veio a notícia: ele estava certo. Cada palavra, cada frase, cada vírgula, sílaba, preposição, tudo! Ela estava livre assim como ele dissera. Marcaram de se encontrar antes de ele viajar para Portugal. Tomaram um chocolate quente e conversaram muito (mais riram do que conversaram, na realidade). Ele se sentia nas nuvens e confiante de que tinha finalmente encontrado uma nova amiga para tapar o buraco deixado por outra – que já é uma outra história. Aquele era seu bálsamo, seu porto seguro... sua gêmula.

O que mais me doía era ver você ali, dançando com gente que você mal conhecia, que jamais te estenderam a mão, que, no máximo, foram companheiros de balada enquanto eu ficava ali de lado sendo fuzilado por olhares alheios de gente baixa e sem categoria. Me sentia como um animal em extinção no zoológico. Mas o olhar não era de pena. Era de desprezo. Desprezo de gente que nem sequer sabia o significado da palavra desprezo, não por serem bons demais, mas por falta de conhecimento. Decidi que a partir dali tudo estava acabado. Fui embora e graças a Deus não precisei dar um pio dentro do carro. Aquela cena ficou marcada na minha memória por tanto tempo que hoje te escrevo essa cartaz. Você nesse momento deve estar batendo papo com algum amigo popular. Rá! Por quanto tempo dura uma popularidade. Deus me livre de ser popular. Quero mais é que os populares se fodam. Quero mais é que você se foda com os populares. Quero lembrar que te esqueci e nunca mais saber que você existe. Esquecer seu nome nas festas quando for apresentá-la a alguém e nunca mais chamá-la por nenhum apelido carinhoso. As letras que fiz a seu favor? Esqueça. Todas serão refeitas para outros nomes que nem existem e, se Deus quiser, jamais existirão. Cansei de amizades fortes como a sua. Cansei de coisas muito intensas como você. Gente alegre demais não me desce mais à garganta graças a você. Você acabou com a minha possibilidade de admirar gente alegre. Também não quero mais cuidar de ninguém, menos ainda achar quem cuide de mim. Aliás, esqueça o foda-se que escrevi mais acima. Mais tarde com certeza vou apagá-lo. Agora não, mas mais tarde com certeza. Esqueça o foda-se e coloque no lugar um eu te adoro. Fica menos deselegante, mas ainda assim mantém a mesma idéia do foda-se! Portando espero que você saiba: eu te adoro!

Os dois se despediram pela última vez no aniversário dela. Completava a idade da estrela. Casais por todo o salão mas ele não foi convidado a dançar. Fez um discurso grande e emocionado, mas não foi aplaudido. Ela com certeza não se lembraria do discurso tempos depois porque ele sucedeu duas amigas e precedeu dois outros amigos. Ele foi o intervalo. Se encontraram de novo apenas meses depois quando ele fingiu que não a conhecia e apenas a cumprimentou quando ela pegou em seu braço e o cumprimentou. Ele fingiu esquecer o nome dela na hora de apresentá-la a uma amiga e assim acabou a história dos dois. Ele foi dançar para um lado e ela foi namorar um garoto que, por conselho dele, está com ela há mais de meses.

E só pra te lembrar que, nesse fim de amizade: eu te adoro!

Um comentário:

Isabel Cristina disse...

Hum que lindo, vc que escreveu???
Adorei, beijocas meu querido amigo!!!