quinta-feira, 27 de maio de 2010

Eduardo & Mariana: Não é bem a metade...

Eduardo acordou cedo e decidiu não pensar mais em Mariana. Mas não teve jeito. Assim que saiu de casa e colocou seu Ipod para tocar teve logo a certeza de que precisava ver Mariana. Nenhuma música servia. Todas lembravam Mariana. Não conseguia ouvir Zélia Duncan dizendo que no silêncio havia uma catedral, menos ainda Adriana Calcanhotto pedindo para que alguém entrasse por alguma porta agora dizendo que a adora. Tudo remetia à Mariana. Conseguiu deixar as lembranças de lado apenas quando assistiu a uma palestra sobre O Cortiço, do Aluísio Azevedo. Toda aquela história de comunidade, sexo e bacanal unidas numa história contada por um ótimo palestrante fizeram Eduardo se esquecer de Mariana. Foi para casa logo após a palestra, mas ainda era cedo. Mariana estava trabalhando ainda e ele não poderia se dar ao luxo de ficar em frente ao prédio até que ela saísse. Decidiu então escrever um pouco, mas o bloqueio criativo criado pela figura de Mariana era maior do que ele imaginava. Passou 15 minutos na frente de uma tela completamente em branco sem nenhuma linha digitada. Decidiu então resolver assuntos pendentes do trabalho para ocupar a cabeça, mas tudo se resolveu em menos de 2 horas, tempo suficiente para que o tédio surgisse mais uma vez e a imagem de Mariana viesse rondar sua imaginação. Não queria ler, pois sabia que toda e qualquer cena intensa vinda do livro de Fernanda Young seria um gancho para se lembrar dela. Decidiu então assistir TV. Dessa vez estava mais concentrado. Assistiu a um capítulo inteiro de alguma reprise de Cougar Town e se mordeu de ódio ao ver que Casos de Família ainda estava no ar. Eduardo já conseguia não pensar em Mariana. Na verdade o que o fazia mal não era pensar em Mariana em si, mas sim pensar que as esperanças que tinha de reconstruir uma amizade com ela não passavam de um mero engano. Mas está mais que comprovado que as pessoas gostam de se enganar.

Achou melhor andar um pouco de bicicleta, atividade que pratica frequentemente, mas, de uns tempos pra cá, veio deixando de lado (não por preguiça, mas por falta de tempo). Enquanto andava e ouvia Madonna sentenciando que seu bem lhe escondia um segredo, foi se dando o direito de pensar. Pensar em tudo. Pensou no trabalho, no teatro, pensou nos amigos, no dia que teve, no trabalho que teria de entregar para o dia seguinte, no aniversário de uma amiga, no casamento de um amigo e, claro, em Mariana. Não é segredo que a idéia que o levou a pensar em Mariana era, de todas, a mais forte. Lembrava-se de um episódio da época em que cursava dança ao lado de Mariana. Os dois estavam em pleno ensaio quando ele cometeu uma gafe. Algo quase imperdoável para alguém que autodenominava inteligente, culto, conhecedor de livros, músicas, história, literatura, filosofia. Imaginou-se nu para que uma vergonha tentasse cobrir a outra, mas nada dava certo. Ao final do ensaio e do mico vergonhoso, sentou-se ao palco, afastado de todos para que não tivesse que encarar ninguém. Mariana sentou-se ao seu lado e começou a puxar assunto. Depois de Mariana outras pessoas foram se aproximando e, mesmo que ele ficasse extremamente vermelho e envergonhado, sabia que ali teria quem o amparasse.

Quase foi atropelado por uma moto, mas não se importou. Mariana ainda lhe tomava a cabeça. Passou rapidamente na casa de um amigo e seguiu direto para a primeira banca de jornal que encontrou aberta. Tinha que colocar dinheiro no bilhete único, afinal estava a nenhum. Tirou as moedas do bolso para carregar o cartão quando se deparou com uma cena dantesca. Duas mulheres brigando por um pedaço de bife dentro de um açougue. Era uma cena engraçada, se vista do ângulo de Eduardo. Ele não se importou em saber o que estava realmente acontecendo, pegou sua bicicleta, passou na padaria para comprar alguns pães e, fora da bicicleta, foi descendo a rua de volta para casa. Estava hipnotizado pelo cheiro de pão quente e fresco e, ao mesmo tempo, se entregava aos Beatles que, ainda juntos, pintavam um céu com diamantes. No meio do caminho, parou estático numa esquina. Não conseguia mais se mover, estava completamente hipnotizado pela imagem que via. Mariana estava à sua frente, andando acompanhada de dois amigos. Ele olhou e rezou para que ela não o visse, para que continuasse a admirar aquela imagem linda.

Lembrou-se de um episódio rápido que aconteceu quando ainda fazia dança. Todos haviam saído e ele ficara para conversar alguma coisa desinteressante com alguém que não convém relembrar. Foi sozinho para casa e, no caminho, viu uma cena, no mínimo, curiosa: três corpos virados de frente para uma porta com os rostos cobertos, como se tentassem se esconder. Parou e ficou olhando fixamente para os três. Eram Mariana e mais duas pessoas que o esperavam chegar. Foram embora conversando, Eduardo e Mariana se despediram dos outros dois e foram embora juntos. Conversavam sobre tudo e, ainda assim, sobre o nada. Deixou Mariana em sua casa, se despediram e ele foi embora pensando: como eu gosto dessa minha amiga. No mesmo dia recebeu um telefonema de Mariana: “Edu, você tem algum texto sobre São Paulo?”. “Outro, Mari?”. “É que os outros ficaram tão bons que eu queria criar um também, mas preciso de ajuda. Vem aqui?”. “Estou indo!”.

Não adiantou. Mesmo com toda a cautela Mariana o viu. Olhou fixamente para ele durante alguns segundos e, com um olhar frio, desviou o rosto para continuar a conversa com os amigos. Eduardo seguiu o mesmo caminho que Mariana não para segui-la, mas porque, por algum motivo, os caminhos se cruzaram. Na hora de se despedirem do mesmo caminho, Eduardo seguiu num olhar reto, sem saber se Mariana olhara alguma vez para trás. Já longe, ele passou a olhar para trás e a via, distante entre várias outras pessoas, mas sabia que era ela. Ela estava marcada no inconsciente dele. O cabelo (que antes era encaracolado e, agora, está liso), a blusa rosa (com a qual ela ia diversas vezes ao teatro), a calça jeans (que ele adorava), tudo. Conheceria Mariana mesmo que estivessem a milhões de quilômetros, separados por um mar de gente. Ainda assim ela seria reconhecida.

Aquele olhar fixo e gelado ficou rondando a cabeça de Eduardo que, chegando em casa, não teve outra reação senão entrar no banho. Um banho rápido, suficiente para uma limpeza higiênica, mas insuficientemente longo para um relaxamento de ideias. Saiu do banho, colocou a primeira calça moletom e a primeira camiseta que encontrou na frente. Colocou pipoca no microondas e esperou. Tomou um yakult, comeu um pão de mel com chocolate e deitou-se no sofá esperando que a pipoca estourasse. Assistiu a uma reprise inédita de The Big Bang Theory, que o ajudou a abrir algum sorriso. Pipoca estourada, acendeu um incenso que havia comprado no dia da Virada Cultural, desligou o telefone e assistiu a uma maratona de 8 horas de According to Jim, o que o deixou mais relaxado. Pegou no sono e decidiu se entregar ao sono profundo que Morfeu o proporcionou naquele momento. Sonhou com Mariana e deixou que o sonho seguisse sem mais nenhum remorso. No sonho, os dois se abraçavam enquanto ele repetia contente: FELIZ ANIVERSÁRIO.

Um comentário:

Isabel Cristina disse...

Estou amando essa história, mas não acaba aki né!!!!!!!!!!!!
bjos.