terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

“Nine” é belo na produção, mas peca no roteiro


Dos Palcos às Telas
Opinião de filme musical
Título: Nine
Direção: Rob Marshal
Roteiro: Michael Tolkin e Anthony Minghella
Elenco: Daniel Day-Lewis, Marion Cottilard, Penélope Cruz, Judi Dench, Fergie, Kate Hudson, Nicole Kidman e Sophia Loren
Distribuidora: Sony Pictures
Data: 2009
Cotação: ***

Baseado no filme 8 ½ de Frederico Fellini, Nine é a adaptação do musical homônimo que estreou na década de 80 nos palcos da Broadway. O espetáculo é uma homenagem a Fellini e a sua obra. No entanto nada em Nine remete à figura de Fellini. O diretor que deu vazão a estupendos filmes de visão poética, lírica e sincera não é retratado em nada nesta versão cinematográfica do espetáculo da Broadway. Muito pelo contrário. A direção é de Rob Marshal, o premiado diretor da ótima versão cinematográfica de Chicago.

Nine é uma bela produção que conta a história de Guido Contini, um premiado e cultuado diretor de cinema italiano que teve real fracasso de bilheteria e crítica em seus últimos dois filmes e está às voltas com a produção de seu novo filme, Itália, que tem tudo pronto (figurino, cenários, elenco, trilha) menos o mais importante: o roteiro. Contini decide então sair a busca de sua inspiração para escrever o roteiro de seu filme. Para tanto ele vai atrás de todas as mulheres que foram importantes em sua vida. Estão presentes sua esposa (Luisa, interpretada por uma maravilhosa Marion Cotillard – a grande estrela de Piaf – Um Hino ao Amor), sua amante (Carla, vivida por uma correta Penélope Cruz), sua mãe (uma sempre majestosa Sophia Loren), sua musa inspiradora (Claudia, vivida por uma sempre genial e carismática Nicole Kidman), a prostituta de sua infância (Saraghina, interpretada por uma correta Fergie) e, uma das figuras mais importantes, sua figurinista (Lili, vivida por uma inexplicável Judi Dench). Há também a perdida presença de uma jornalista da Vogue (Stephanie, interpretada pro uma estranha Kate Hudson). Por mais que o argumento e o enredo em si sejam bons, o roteiro é fraco. Na versão cinematográfica, Guido Contini (vivido em 2003 na Broadway por Antonio Banderas) acaba se tornando um atormentado diretor mimado e pouco interessante. O interesse se mantém na figura mítica criada para Guido pelo enredo. Em nenhum momento a imagem de um diretor com a síndrome da “página em branco” parece convencer. A impressão que se passa é a de que o diretor apenas cansou da carreira e decidiu jogar sua carreira no lixo (talvez esta também seja uma possibilidade). Daniel Day-Lewis construiu um Guido um tanto enfadonho para si. Ele parece muito perturbado, mas em nenhum momento chega a convencer que seu real propósito é o de criar um roteiro para seu filme. Também não convence muito seu relacionamento com sua amante Carla ou com sua mãe. Tudo soa muito artificial (mais do que se gostaria). Nem a crise de seu casamento ou sua interação com os jornalistas soa menos “fake”. Mas nada parece mais vergonhoso que a admiração de Guido por sua musa inspiradora, Cláudia. O Guido criado por Daniel não tem carisma nenhum, nem mesmo com as outras personagens. Nicole Kidman tem aparição breve, mas já vale o filme inteiro.

O que realmente salva o filme são os números musicais. Alguns muito bons, outros nem tanto, mas ainda assim soam melhor que a história em si. A primeira canção, “Guido’s Song” vale mais pelo momento teatral protagonizado por Day-Lewis que pela canção em si. Penélope Cruz consegue um ótimo momento como cantora e bailarina em “A Call from the Vatican”, totalmente sexy. Seu número tem uma vantagem: a edição que une o clipe feito por Penélope com cenas de Guido sendo medicado. Momento que beira ao hilário. Mas um dos melhores momentos do musical é sem dúvida “Folies Bergere”, cantado por Judi Dench. Um momento divertido que lembra realmente o “folies bergere” de uma antiga Paris. Fergie se sai muito bem em “Be Italian”, colocando o que tem de melhor a seu favor: sua voz. Já Marion Cotillard mostra que deveria ter sido a real indicada ao Oscar na categoria de atriz coadjuvante (indicação dada erroneamente a Penélope Cruz). Marion tem dois grandes momentos, um menor (“My Husband Makes Movies”) e um bem maior (“Take it All”, a melhor canção do filme que chegou a ser indicada ao Oscar na categoria de melhor canção). Kate Hudson tem seu melhor momento cantando. Na divertida “Cinema Italiano”, que mostra os bons dotes de cantora da atriz numa das canções mais difíceis da trilha. Sophia Loren também ganha uma canção neste espetáculo todo e mostra o porquê de ser considerada a diva do cinema italiano. “Guarda La Luna” é uma deliciosa canção de ninar. Aliás, nenhuma das três canções (“Take it All”, “Cinema Italiano” e “Guarda La Luna”) faz parte do roteiro original do musical. Foram todas adicionadas para dar vigor maior ao filme. Rob Marshal foi inteligente. Todos os números funcionam porque se passam em momentos distintos, todos feitos num palco. As duas únicas canções que não se passam num momento de palco são “My Husband Makes Movies” e “Unusual Way”, deliciosa valsa cantada por uma exímia Nicole Kidman. Day-Lewis volta a convencer num momento musical (mais cênico que vocal) em “I Can’t Make this Movie”. A fotografia (Dion Beebe) é ótima e a luz, mesmo não sendo genial, não prejudica mais o filme. Os figurinos (Colleen Atwood) são um caso a parte. Os modelos usados por Penélope Cruz (em sua primeira cena na estação), Marion (quando canta “Take it All”), Judi Dench (em toda a cena de “Folies Bergere”), Fergie (também cantando “Be Italian”) e Kate Hudson (em todas as suas cenas).

Enfim, Nine é um musical que vale mais pelas músicas que pela história em si. Coerente? Sim, mas poderia ter sido melhor. Esperava-se mais de um homem que levou aos palcos uma versão tão arrebatadora de Chicago. Mas se você é fã de musicais, assista e tire suas próprias conclusões, enquanto a versão de Charles Möeller e Cláudio Botelho ainda está no forno... Daí sim você saberá o que estou dizendo.

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